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Escrever à mão ou teclar?

O mundo está cada dia mais conectado e uma onda de novidades tecnológicas invadiu o nosso cotidiano. Nesse contexto, é natural que as pessoas comecem a mudar seus hábitos e, em alguns casos, rechacem costumes antigos. Ler utilizando um Kindle, tratar os livros impressos como mídias obsoletas, teclar ao invés de escrever à mão e até mesmo substituir a fala pela digitação por meio de aplicativos – essas são algumas das características atuais desse mundo hiperconectado, digo atuais porque tudo pode mudar muito rápido e não temos a menor ideia do que estar por vir em termos de novas tecnologias.

A escrita à mão vem sofrendo com essas mudanças e, aparentemente, as pessoas estão escrevendo menos e digitando mais. Mas será que essa mudança de hábito é saudável? Qual é a repercussão disso na educação?

Este artigo não tem pretensões científicas, portanto não encerra a discussão sobre o tema. Contudo, não podemos fugir da análise sob a luz da ciência, principalmente considerando os estudos relacionados a neurociência e neuropediatra, já que os mais afetados com esse tipo de mudança comportamental geralmente são as crianças. Assim, colocarei algumas referências ao final deste artigo, para aqueles que desejam um maior aprofundamento do tema.

Vamos iniciar nossa discussão falando sobre o impacto dessa mudança comportamental sobre as crianças.

Muitos pedagogos estão relegando a importância da escrita à mão e muitas escolas já não estimulam a aplicação dos exercícios de caligrafia. As crianças que nasceram no mundo dos teclados conectados precisam aprender caligrafia?

Alguns estudos sugerem que a escrita cursiva aumenta o nível de atenção das crianças a linguagem escrita. O ato de escrever melhora a grafomotricidade e também ajuda a desenvolver algumas áreas cerebrais ligadas ao planejamento. Escrever requer coordenação motora, cognitiva e neuromuscular. É um verdadeiro exercício para mente.

Uma das coisas interessantes é que há diferenças quanto ao tipo de estímulo gerado pela escrita cursiva e letra de forma. Definitivamente, digitar não gera os mesmos estímulos que a escrita à mão, e a escrita cursiva ajuda as crianças no aprendizado linguístico.

Os estímulos gerados pela leitura de textos em letra de forma são interessantes nos anos escolares iniciais, já que facilitam o reconhecimento das letras pelas crianças. A escrita cursiva ajuda na grafomotricidade e composição, já que conecta as letras. A digitação gera outros tipos de estímulos e, portanto, deveria ser utilizada em anos escolares mais avançados. Esse parece ser o consenso sobre o tema, ou, pelo menos, foi o que pude concluir ao estudar o assunto.

Em parte, a mesma lógica se aplica aos adolescentes e adultos.

Ao fazer anotações à mão, o indivíduo usa a sua própria lógica mental para desenvolver uma ideia. Assim, escrever á mão se torna uma ação didática que ajuda no aprendizado ou entendimento de uma informação.

Um estudo realizado em 2014 e publicado pela Physiological Science, sugere que fazer anotações no laptop é menos eficiente do que usar lápis e papel. O processamento das informações parece ser mais superficial quando digitamos. Em suma, podemos afirmar que escrever à mão é um exercício didático-pedagógico mais eficiente do que digitar.

Recentemente, o MEC anunciou mudanças no modelo do Enem, indicando a possibilidade de utilização de sistemas online para aplicar a avaliação. Será que essa mudança é pertinente? A avaliação online substitui a avaliação escrita?

Concluo que não. São modelos completamente diferentes, sendo a avaliação online menos formativa, já que aparentemente a escrita manual gera estímulos de aprendizado mais profundos e mais lógicos para mente humana se comparada com a digitação. Contudo, a avaliação online traz algumas inovações interessantes, como a possibilidade de itens com recursos multimídia que podem solicitar habilidades cognitivas mais complexas. Nesse contexto, seria interessante aplicar os dois modelos de avaliação, entretanto, os custos seriam elevados e isso pode ser um fator limitante. Nesse caso, tendo que escolher apenas um modelo, optaria pela avaliação escrita à mão.

Parece que a avaliação impressa ainda terá vida longa…

Mas, e aí? Escrever à mão ou teclar?

A resposta é… escrever à mão. Em alguns casos, pode até ser mais trabalhoso e um contrassenso nesse mundo hiperconectado. Mas, a escrita à mão traz mais benefícios ao nosso cérebro e quando tratamos do processo de ensino-aprendizagem, é indiscutível: o ato de escrever à mão é essencial.

Esse é mais um daqueles casos em que o novo nem sempre é melhor ou substitui o antigo.

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