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Instrução Direta vs. Construtivismo: eis a questão.

Nas últimas décadas vimos a ascensão das teorias construtivistas, da abordagem desenvolvimentista e de teorias de estilos de aprendizagem no meio educacional mundial. O discurso de base dessas teorias é focado no aprendizado de acordo com as características e necessidades individuais de cada estudante. Tais teorias educacionais buscam o ensino orientado pelo próprio estudante, como se cada indivíduo apresentasse uma maneira muito especializada e própria de aprender, sendo capaz de construir sua base de conhecimento com pouquíssima interferência do professor. De certo modo é um discurso encantador. Mas será que os resultados da aplicação dessas teorias são interessantes?

Parece que não!

O objetivo deste artigo é colocar os “pingos no is”: afinal, qual é o método de ensino mais eficaz?

Para atingirmos nosso objetivo, utilizaremos como base o trabalho realizado por Stockard e col. (2018), um amplo estudo a partir de artigos publicados nos últimos 50 anos, entre 1966 e 2016. Assim, foram 328 artigos analisados sobre diferentes métodos de ensino e 3999 efeitos.

Eles chegaram a conclusão que o método de instrução orientado pelo professor é mais eficaz do que outros métodos (clique aqui para ver o estudo). De tal forma que os pesquisadores foram categóricos ao afirmar que os estudantes aprendem melhor e mais rápido com o método de Instrução Direta, e citaram o trabalho desenvolvido por Engelmann e col. (1960) (National Institute for Direct Instruction).

Bases da Instrução Direta

A premissa fundamental da Instrução Direta baseia-se na ideia de que todos os estudantes podem aprender com instruções adequadas. Isto é, o sucesso do aprendizado depende majoritariamente do planejamento instrucional. Ou seja, um conceito que diverge do construtivismo, da abordagem desenvolvimentista e da teoria de estilos de aprendizagem, que limitam o aprendizado do estudante ao seu estágio de desenvolvimento, a sua capacidade de construir conhecimento ou as características específicas de aprendizado de cada indivíduo.

Contrapondo-se a isso, a Instrução Direta admite que todos os estudantes podem aprender desde que:
  • Dominem os conhecimentos e habilidades considerados pré-requisitos;
  • A instrução seja inequívoca e nunca ambígua.

Na Instrução Direta o estudante é considerado um ser inerentemente lógico e, portanto, aprende de forma sistemática. Dessa forma, o estudante desenvolve o aprendizado fazendo inferências a partir de exemplos que são apresentados pelos professores. Nesse ponto, a Instrução Direta se assemelha ao construtivismo, porém os exemplos são estruturados e cuidadosamente escolhidos para que o estudante aprenda os conceitos de forma precisa. Além disso, os estudantes recebem um reforço positivo a cada avanço de aprendizado. O estudante aprende seguindo a lógica de que se deve aprender e dominar os conhecimentos e habilidades básicos antes de partir para as habilidades mais complexas. Assim, aprende-se de forma mais assertiva, evitando-se erros conceituais.

Aprender um conceito corretamente é mais fácil do que desaprender um conceito defeituoso formado por si mesmo. Dessa maneira, os estudantes adquirem mais segurança do aprendizado e os professores observam mais claramente a evolução dos estudantes.

O construtivismo torna-se, nesse ponto, ilógico diante da Instrução Direta.

Por que construir conceitos defeituosos para depois corrigi-los?

As pesquisas demonstram que a Instrução Direta também melhora a autoestima da criança e, por conseguinte, seu comportamento. Por certo, esse fato possivelmente está ligado ao aprendizado sistematizado e embasado na aquisição sequencial de conteúdos que servem como pré-requisitos, alicerçando o domínio de conhecimentos e habilidades mais complexas pelos estudantes. De tal forma que as crianças aprendam com mais segurança e sigam confiantes.

Contraditoriamente, o construtivismo busca colocar o estudante como protagonista na construção do conhecimento, mas, no “frigir dos ovos”, faz com que o estudante tente “reinventar a roda” repetidas vezes e, como consequência, induz os estudantes a conceberem conceitos errados, que precisam ser corrigidos pelos professores. Isso gera mais etapas de ensino para que o estudante consiga aprender corretamente os conceitos, tornando o processo ensino-aprendizagem menos eficiente e gerando insegurança quanto ao aprendizado obtido pelo estudante.

Assim sendo, a lógica construtivista praticamente elimina a possibilidade de sistematização dos materiais didáticos e dos processos de ensino, tornando a educação algo quase intangível.

A exacerbação do construtivismo nos levou a uma educação imponderável. Pois as percepções substituíram os dados e evidências, e o professor, em certa medida, deixou de orientar o ensino. As evidências científicas são claras em favor da Instrução Direta, mas, estranhamente, as teorias construtivistas têm dominado o cenário educacional brasileiro e americano.

Por que o construtivismo domina o cenário educacional brasileiro?

A ideia errônea de que a Instrução Direta, de alguma forma, oprime os estudantes, levando a crer que os alunos devem conduzir a aprendizagem e não o professor. De tal forma que alguns educadores tidos como referência da educação brasileira defendem direta ou indiretamente essa falsa ideia de opressão;

A conclusão equivocada de que a Instrução Direta cerceia a livre opinião e o pensamento crítico dos estudantes, quando, na verdade, é o oposto. Pois, na Instrução Direta, os estudantes dominam as informações básicas antes de partir para o entendimento dos conceitos mais complexos, permitindo que eles possam fazer críticas mais qualificadas e com mais segurança;

O entendimento sem razão de que a Instrução Direta, de alguma forma, sufoca a independência e/ou personalidade dos professores. Quando, na verdade, é exatamente o contrário, pois as aulas bem planejadas mantêm o foco dos professores nos resultados dos alunos, dando-os mais liberdade para que eles atuem pedagogicamente nos processos de ensino.

Os fatores supramencionados são justificativas pouco plausíveis para o não uso da Instrução Direta em nossas salas de aula. Possivelmente, o viés político educacional brasileiro influenciou a incorporação dessas ideias, afastando, desse modo, o correto direcionamento científico-educacional que aponta fortemente para utilização da Instrução Direta em nossas escolas.

Se queremos sair do marasmo educacional, precisamos adotar métodos de ensino comprovadamente mais eficazes. Pois, caso contrário, continuaremos a patinar na educação.

É preciso mais pragmatismo e menos ideologia.

Até o próximo artigo!

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