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O caos no sistema educacional brasileiro

Poucas pessoas no Brasil acertam o real diagnóstico situacional da tragédia educacional que assola o país. Nossos índices educacionais são pífios e vergonhosos. Investimos pesado em educação e simplesmente não conseguimos bons resultados. E o pior é que a maioria dos nossos “especialistas” em educação e os nossos “queridos” políticos passam à margem dos problemas educacionais brasileiros.

Mas, quais são os reais problemas educacionais brasileiros?

No momento, uma coisa já está clara: o nosso problema não é falta de investimento, já que o investimento em educação tem aumentado significativamente no Brasil nas últimas décadas, sem que os resultados acompanhassem a evolução desses investimentos. Atualmente, investimos cerca de 6% do PIB em educação (fonte: OCDE). De fato, é um percentual de investimento comparável a de alguns países desenvolvidos que apresentam resultados educacionais bem melhores que os nossos. Os EUA investem 5,4%  e o Chile investe apenas 4,8% do PIB. Do mesmo modo, o estrondoso resultado educacional de Singapura foi obtido com investimentos, em média, de apenas 4,3-4,9% (você pode conferir esses dados aqui).

Alguns podem contra-argumentar dizendo que o investimento por aluno ainda é baixo no Brasil, porém, na minha opinião, o melhor parâmetro é o percentual de investimento em relação ao PIB, pois o investimento em dólares por estudante é uma variável complexa, já que as variações cambiais das diferentes moedas e o PIB per capita dos diferentes países podem mascarar o verdadeiro tamanho do investimento em educação dessas nações.

Esses dados comprovam que não adianta “derramar” dinheiro no sistema educacional para obter bons resultados, é preciso saber aplicar esses recursos de forma inteligente e ter método. A educação é uma área extremamente técnica, na qual os métodos científicos devem nortear os processos, portanto, não há espaços para “achismos”.

Assim, é possível realizar muitas  coisas no âmbito educacional brasileiro sem a necessidade de necessariamente aumentar o investimento atual em educação. Mas, para isso, precisamos usar melhor os recursos preexistentes.

Resumidamente, essa é a realidade educacional brasileira, bons investimentos e péssimos resultados.

Então, o que fazer para melhorar nosso sistema educacional?

A nossa prioridade número 1 deve ser estruturar e organizar os processos pedagógicos. Esse é o trabalho que realizamos na Qstione, pois a estruturação da avaliação de estudantes perpassa pela estruturação da base curricular.

Mas, por onde começar?

Não obstante aos problemas de capacitação de professores, reestruturação dos cursos de pedagogia e melhoria dos processos de avaliação, o salto de qualidade da nossa educação deve se iniciar pela estruturação de nossa base curricular em todos os níveis educacionais (1º e 2º grau, ensino técnico e superior).

Hoje, no Brasil, os ensinos fundamental, médio e superior estão desnorteados. Isto é, não há objetivos de aprendizagem bem estabelecidos, e, desse modo, não sabemos onde queremos chegar ou qual é o perfil dos profissionais que almejamos formar, considerando as competências exigidas no século XXI.

Um bom exemplo de como organizar uma base curricular é o Syllabuses de Singapura. Trata-se do sistema de base curricular de Singapura, no qual os objetivos de aprendizagem e competências mínimas para formar os cidadãos do século XXI foi estabelecido com maestria, de forma técnica e isenta de ideologias. Assim, esses objetivos norteiam o sistema educacional singapurense, possibilitando a instituição de metas e aferição clara de resultados da educação daquele país.

Parece óbvio: é preciso saber onde se quer chegar antes de se iniciar uma caminhada educacional.

Mas essa obviedade não é utilizada no sistema educacional brasileiro. Visto que simplesmente não sabemos onde queremos chegar em termos de resultados educacionais.

No ensino de 2º grau, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) é um documento inacabado e confuso, já no ensino superior os cursos são fragilmente estruturados em currículos tecnicamente duvidosos. Em suma, nossos projetos pedagógicos são, em grande parte dos casos, documentos mal estruturados e que servem apenas para contemplar exigências formais e burocráticas do MEC, que atualmente centraliza as ações e regulamentações educacionais brasileiras nos âmbitos público e privado.

Sem objetivos de aprendizagem e competências norteadoras bem definidas, nossa educação segue cambaleando em um labirinto de estratégias de ensino que não nos leva a lugar algum.

Assim, quando nossos estudantes são objetivamente avaliados por instituições internacionais como a OCDE e até mesmo por ferramentas avaliação institucional internas, como o Enade (ensino superior) e Enem (2º grau), nossos resultados são desastrosos.

Resumidamente, se queremos melhorar nossa educação, o nosso foco não deve ser simplesmente o aumento de investimento, pois isso seria mais desperdício de dinheiro, já que o problema está ligado a métodos e gestão dos processos pedagógicos. O nosso foco deve ser capacitar os gestores educacionais e exigir políticas educacionais voltadas para ações de ordem técnica.

Precisamos de mais método, menos ideologia e mais pragmatismo.

Até o próximo artigo!

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