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Objetivos de aprendizagem

Título do texto: o ato de ensinar começa com a estruturação dos objetivos de aprendizagem

Algumas coisas devem começar pelo fim – esse foi um dos aprendizados que adquiri durante minha vida acadêmica e como gestor educacional. Assim, aprendi que não devemos iniciar um processo de ensino sem saber onde se quer chegar. Parece óbvio, mas muitos educadores não pautam seu trabalho seguindo essa cartilha.

Nesse contexto, o ensino baseado em “achismos” e meras percepções parece dominar a academia brasileira. Nesse contexto, uma educação baseada em dados e indicadores ainda é algo inimaginável em grande parte de nossas escolas e universidades. Todavia a estruturação e sistematização dos objetivos de aprendizagem são eventos basilares da geração de dados e indicadores educacionais, devendo ser o ponto de partida de qualquer modelo pedagógico.
Para introduzir esse assunto é necessário fazer uma breve contextualização histórica.

Bloom e os objetivos de aprendizagem

Provavelmente, o maior trabalho de codificação, classificação e padronização de objetivos de aprendizagem realizado na área educacional foi a taxonomia de Bloom (1956), que foi posteriormente revisada em 2001. Nós já temos um artigo sobre o tema e você pode encontrá-lo aqui, fica a sugestão de leitura.

Conforme dito, esse trabalho realizado por Bloom e colaboradores foi resultado de uma demanda situacional da época. Naquele período o mundo era bem diferente dos dias de hoje. Havia uma forte demanda por mão de obra qualificada e o sistema educacional, de certa forma, era o gargalo. Sendo assim, a falta de massificação educacional não permitia o crescimento de recursos humanos qualificados e em conformidade com as necessidades de mercado. Pois vivia-se uma grande expansão industrial iniciada após a segunda guerra mundial, na qual era preciso redefinir e/ou definir os processos de aprendizagem, determinando e estruturando os objetivos instrucionais.

Nesse ínterim, o foco era garantir que escolas e universidades pudessem atingir o máximo de eficiência na busca por objetivos educacionais preestabelecidos. E isso foi feito. Dessa forma, a taxonomia de Bloom ajudou profissionais do setor educacional na estruturação dos objetivos instrucionais, facilitando o planejamento dos processos de ensino.

Mas, como deve ser estruturado um descritor de objetivo de aprendizagem?

Para compreender melhor, veja o exemplo abaixo:

A imagem apresenta análise de um exemplo de objetivos de aprendizagem. O objetivo "O estudante deve ser capaz de reconhecer os ossos da face, analisando imagens radiológicas identificando no mínimo 5 estruturas diferentes" é dividido em quatro blocos. 

1. Audience: o estudante deve ser capaz de
2. Behavior: reconhecer os ossos da face
3. Condition: analisando imagens radiológicas
4. Degree: identificando no mínimo 5 estruturas diferente
Estruturação dos objetivos de aprendizagem

Assim, o descritor de um objetivo de aprendizagem deve:

  • Identificar Quem (Audience) deve adquirir a habilidade (ou conhecimento) solicitada na avaliação ou trabalhada na aula;
  • Descrever a ação mensurável (Behavior) a ser avaliada (com a qual o estudante demonstra o domínio da habilidade ou conhecimento descrito no objetivo);
  • Indicar a condição que o estudante deve demonstrar a ação mensurável (Condition); e
  • Especificar o critério que qualificará como aceitável ou proficiente (Degree) a resposta fornecida pelo estudante a um dado questionamento na avaliação.

Essa estrutura simples e direta facilitou muito o trabalho de professores e pedagogos, fazendo com que a taxonomia se difundisse rapidamente no meio acadêmico. Assim sendo, as aulas e avaliações passaram a ter objetivos de aprendizagem específicos e facilmente aferíveis.

Os objetivos de aprendizagem e a educação no Brasil

Aparentemente, no Brasil, as coisas aconteceram de uma forma um pouco diferente:

  • A taxonomia não se difundiu tanto no meio acadêmico;
  • A estruturação dos objetivos de aprendizagem não foi privilegiada em grande parte das instituições de ensino;
  • A avaliação passou a ser um instrumento de aferição subjetiva e abstrata das percepções dos professores acerca dos conteúdos trabalhados nas aulas.

Isso gerou uma distorção de finalidade da avaliação, de tal forma que, em alguns casos, a avaliação de estudantes tornou-se uma mera ferramenta administrativa para balizar a aprovação ou reprovação dos alunos. Não é incomum identificarmos (equipe Qstione) instituições de ensino em que as aulas são planejadas de acordo com a intuição dos professores e com pouquíssima estruturação pedagógica.

Nós, profissionais da educação, precisamos nos conscientizar que o ato de ensinar começa com a estruturação dos objetivos de aprendizagem. Por isso, os objetivos instrucionais devem ser o início, o meio e o fim do processo ensino-aprendizagem. Portanto, se você é gestor educacional ou professor, reflita sobre como a sua instituição de ensino estrutura os objetivos de aprendizagem. Você pode começar fazendo as seguintes perguntas:

  • Os planos de ensino descrevem com clareza quais são os objetivos instrucionais de cada módulo ou disciplina?
  • As avaliações de estudantes são norteadas pelos objetivos descritos em uma matriz de referência?
  • Os objetivos de aprendizagem são amplamente divulgados entre estudantes e professores?

Se a resposta a alguma dessas perguntas for não, procure reformular as práticas pedagógicas.

A estruturação dos objetivos de aprendizagem é um trabalho meramente pedagógico, assim não é preciso grande investimento. Entretanto, uma vez estruturados, os resultados educacionais florescem, já que uma boa gestão pedagógica depende da indexação desses objetivos ao processo de avaliação de estudantes e as estratégias de ensino.

Esse tema merece uma sequência de artigos. Assim, em breve traremos novos textos sobre. Aguardem!

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