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Por que não formalizamos a educação informal?

Tenho lido muitos artigos e até livros que falam sobre a importância cada vez menor das instituições formais de ensino na formação de indivíduos capazes de gerar valores para sociedade. Há 10 anos, isso seria inconcebível. Alguns autores estão colocando universidades e escolas no rol das instituições consideradas inúteis — parece surreal, mas isso está acontecendo.

Não vou citar os autores que defendem tais ideias para não criar uma polêmica desnecessária, pois considero que o mais importante é discutir a ideia em si. Assim, fiz um resumo dos principais argumentos utilizados pelos defensores da educação informal.

O que é educação informal?

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A educação ou aprendizado adquirido pelas experiências individuais e/ou por meio do autodidatismo, sem a orientação e a chancela de uma instituição de ensino formalmente estabelecida.

Primeiramente, trarei os argumentos. Em seguida, comento cada um, com o intuito de colocar luz sobre o tema.

1º Argumento

As instituições de ensino atuais não oferecem a possibilidade do estudante desenvolver habilidades com aplicabilidade real em nossa sociedade. Os conhecimentos trabalhados nessas instituições não servem para solucionar os desafios práticos da sociedade.

Para comentar esse argumento é preciso, antes de tudo, fazer um breve resgate histórico. Analisando a história recente da humanidade, podemos afirmar que a massificação da educação formal no mundo ocidental sedimentou-se após a segunda guerra mundial. Naquela época, havia uma forte demanda por mão de obra qualificada.

O mundo passava por um crescente processo de industrialização, portanto, a necessidade de capacitação dos trabalhadores era crucial. Por isso, a capacitação de trabalhadores precisava ter um viés de aplicabilidade prática do conhecimento. Assim, de certa forma, a massificação educacional ocorrida principalmente nos EUA e Europa no período pós-guerra (segunda guerra mundial), foi consequência de uma necessidade mercadológica da sociedade da época.

Era preciso ensinar as pessoas a operar máquinas, a fazer cálculos, elaborar projetos, etc. Dessa forma, os objetivos acadêmicos e os anseios da sociedade da época aproximaram-se.

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Atualmente, a minha percepção é inversa, a academia parece estar cada dia mais distante dos anseios da sociedade: fechada em si mesma, como se a educação não fosse um valor inerente ao desenvolvimento de uma sociedade mais próspera.

A educação ocidental parece ter perdido o foco social do ensino. De tal forma que as habilidades trabalhadas nas salas de aulas das escolas e universidades parecem envolver um mundo paralelo, longe da realidade da maioria das pessoas, e que só existe dentro do próprio ambiente acadêmico. Diferentemente da educação oriental, que buscou o caminho inverso e, talvez por isso, conseguiu resultados superiores nas últimas décadas. A Coreia do Sul é um exemplo de excelência educacional nesse sentido, demonstrando essa conexão da educação com a realidade da sociedade e aplicabilidade do conhecimento.

Alguns liberais mais críticos dizem que o ensino formal é uma total perda tempo, como se ir para universidade fosse apenas uma forma evitar a vida adulta por um tempo. Todavia não gosto de generalizações, mas, a depender do nível de desconexão da instituição de ensino, essa afirmação, em certa medida, não está longe da realidade. O ensino formal pode ser, em alguns casos, uma grande perda tempo.

2º Argumento

O sistema acadêmico (inclui-se o ambiente escolar) foi criado por e para professores, sendo o professor o ator principal e o estudante um mero coadjuvante. O sistema de ensino e avaliação servem apenas para aquele ambiente acadêmico fechado.

Considero esse argumento o mais forte de todos. Não se pode negar, principalmente nas instituições de ensino Brasileiras, o excessivo de foco nos objetivos do professor em detrimento do aprendizado do estudante. A minha percepção é que isso ocorre mais fortemente nas universidades. Nesse sentido, a estrutura organizacional de nossas universidades é feita para satisfazer prioritariamente as necessidades dos professores. Quer pela carga horária das disciplinas, que não respeitam o tempo de aprendizado de cada estudante, quer pela avaliação que não segue critérios técnicos (em boa parte dos casos). Além disso, a fiscalização do trabalho do professor é ineficiente e há pouco espaço para intervenções pedagógicas individualizadas. O estudante é obrigado a seguir um processo que, em grande parte dos casos, não ajuda ou facilita o aprendizado. Enfim, parece que o sistema de ensino formal foi elaborado para facilitar e/ou sistematizar o trabalho do professor independentemente do processo ensino-aprendizagem.

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Na prática, os estudantes são motivados a realizar coisas que são aprovadas por um grupo exclusivo e restrito de professores. De tal forma que não há incentivos para criação de valores reais e reconhecidos pela sociedade.

Essa prática é contraditória com a aquisição do verdadeiro conhecimento, que é sedimentado quando o indivíduo coloca a “mão na massa”, a fim de vivenciar os aspectos práticos da vida. A estrutura de ensino precisa facilitar a formação desses saberes e a difusão do conhecimento, caso contrário, o próprio conhecimento se torna inútil. No entanto, um ambiente fechado como o das universidades brasileiras é um terreno fértil para amplificação da mediocridade e a consequente não propagação do conhecimento.

3º Argumento

As escolas e universidades, em conjunto, formam aprendizes de professores. Pois as habilidades trabalhadas em sala de aula só servem dentro das próprias instituições de ensino, que estão repletas de estudantes desmotivados, buscando apenas uma forma de credenciamento (certificados e/ou diplomas).

A busca pelo credenciamento é inerente ao estudante de qualquer instituição de ensino formal. Obviamente, os entraves legais também motivam essa busca, já que a habilitação de algumas profissões exige uma certificação formal como condição primordial para exercer o trabalho.

Além disso, uma grande parte dos mestres e doutores brasileiros se tornam professores universitários em nossas universidades federais. Esse é o retrato da educação formal brasileira, na qual o dinheiro do contribuinte é gasto para formar doutores que voltam para o serviço público, gerando, portanto, pouca riqueza ou valor para sociedade. Vale ressaltar que, atualmente, apenas cerca de 30% dos estudantes de graduação cursam em universidades públicas. Assim, qual é o sentido de investir na formação de uma “elite intelectual” que não gera valor para sociedade? Eis uma questão que merece reflexão.

Muitos já perceberam essa dissonância do ensino formal, visto que com a democratização da informação por meio de novas mídias, como as encontradas na internet, o acesso a diferentes formas de conteúdo ficou mais simples e rápido. Isso gerou uma grande mudança de paradigma, já que o professor deixou de ser o principal provedor de conteúdo. Dessa forma as pessoas passaram buscar o conhecimento por outros meios e o autodidatismo passou a ser mais comum.

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A sociedade está descobrindo as maravilhas da liberdade de pensar e aprender sem um tutor formal e sem obrigações institucionais. O acesso ao conteúdo deixou de ser um problema.

Atualmente, ou as pessoas podem aprender aquilo que elas precisam ou simplesmente buscar o conhecimento de acordo com suas próprias demandas pessoais, norteando-se pela necessidade profissional ou simplesmente pelo prazer de aprender.

4º Argumento

O diploma é algo inócuo. As empresas e o mercado em geral buscam pessoas capazes gerar algum valor específico, que dominem habilidades específicas, e que sejam capazes de tomar decisões e resolver problemas sob pressão.

A simples certificação realmente não significa muita coisa, já que o foco da educação reside na aquisição habilidades específicas. Esse é o nascedouro das competências. Infelizmente, ainda não temos no Brasil uma cultura educacional voltada para aquisição de habilidades e competências em consonância com as necessidades da sociedade.

Ao escolher o caminho da educação formal, os estudantes deveriam se preocupar com o objeto do aprendizado. Mas o foco, em muitos casos, está limitado a certificação. Como se um pedaço de papel carimbado resolvesse todos os entraves sociais ligados a geração de valores reais a nossa sociedade.

De fato, o indivíduo que busca por conta própria os conhecimentos que o levarão a aquisição das competências que geram valores específicos para sociedade, com certeza, terá um diferencial no mercado de trabalho.

Essas pessoas geralmente são intelectualmente autônomas e livres de amarras meramente ideológicas. De tal forma que, atualmente, essas são as características dos profissionais mais disputados do mercado.

Educação formal: a favor ou contra?

Se você leu este artigo até este ponto, provavelmente deve estar pensando que o autor que vos fala é contra o sistema de ensino formal. Se você pensou isso, está enganado. A questão principal não é ser contra ou à favor da educação formal, já que, na minha opinião, as pessoas devem ser livres para escolher os próprios caminhos de aprendizado.

Se as pessoas são livres para escolher o sistema educacional, então o grande desafio passa a ser a avaliação de competências. Afinal de contas, no frigir dos ovos, o mais importante é identificar se o indivíduo domina ou não uma determinada habilidade ou competência. Não é isso que as empresas precisam saber antes de contratar alguém? A finalidade da formalização ou certificação educacional é sinalizar para comunidade quem são as pessoas competentes ou capazes exercer funções específicas na sociedade.

A formalização da educação tem o objetivo de avaliar se uma pessoa é ou não competente, contudo o foco deveria ser o indivíduo e não as instituições de ensino. Atualmente, a avaliação de estudantes está orientada a avaliar as instituições de ensino, quando deveria avaliar o indivíduo. Dessa forma, todos são obrigados a optar pelo sistema de ensino formal, mesmo que seja apenas para obter uma certificação. No paradigma atual, não basta ser competente, é preciso também estudar em uma instituição credenciada, mesmo que o modelo de ensino não seja o mais adequado.

Em suma, precisamos melhorar o processo de avaliação de competências, pois isso dará mais liberdade ao indivíduo. Isso permite escolhas variadas de sistemas de ensino formais ou não. Resumidamente, pouco importa quais foram os meios utilizados pelas pessoas em busca do aprendizado. O cerne da questão está no resultado, pois as pessoas são muitos diferentes entre si, sendo capazes de se identificar com diferentes métodos de aprendizado.

O sistema educacional formal está enfraquecido e não consegue acompanhar a evolução das necessidades da sociedade, isso é um fato, mas não é definitivo. Contudo, não podemos generalizar, pois muitas pessoas conseguem tirar proveito desse sistema. Embora um grande número de pessoas faça uso de outras ferramentas educacionais não formais, com grande sucesso também. Assim, o grande desafio educacional, talvez o desafio do século, é a evolução dos processos de avaliação.

É preciso avaliar com mais precisão as competências individuais, pois a mera passagem pelo sistema de ensino formal não é garantia de competência.

O grande desafio da educação, formal ou informal, é a avaliação.