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Tecnologia avançada é sinônimo de simplicidade

Trabalho no desenvolvimento de materiais didáticos e tecnologias educacionais desde 2008, mas vejo com preocupação o avanço do marketing tecnológico, sem base pedagógica, no setor educacional.

Algumas empresas oferecem produtos educacionais que visam resolver problemas sofisticados, quando, na verdade, a maioria dos desafios educacionais enfrentados pelas instituições de ensino brasileiras estão relacionados a questões simples, geralmente de cunho organizacional e/ou metodológico. Sendo assim, esses produtos tecnológicos mais sofisticados deveriam ser restritos a um público muito específico no Brasil. Mas, em alguns casos, não é isso que observamos. Algumas instituições de ensino adquirem tecnologias que na prática não resolvem os problemas de base. Isto se materializa em tempo e dinheiro desperdiçados.

Tecnologias que envolvem o uso de ferramentas de BI (Business Intelligence), inteligência artificial, robótica, ambientes de simulação, realidade virtual e/ou aumentada, são simplesmente fantásticas. Tem muita gente desenvolvendo soluções realmente inovadoras para o setor educacional. Todavia a maioria dos  problemas educacionais brasileiros estão ligados a falta de infraestrutura, a capacitação de professores e gestão pedagógica. Assim, boa parte dessas tecnologias servem muito pouco a nossa realidade.

Quais as reais necessidades das instituições?

A nossa equipe (Plataforma Qstione) trabalha com o propósito de reestruturar processos avaliativos de instituições de ensino em todo Brasil. Nossa tecnologia é usada a fim de sistematizar as avaliações cognitivas de escolas e faculdades. Assim, nós verificamos na prática quais são as reais necessidades dessas instituições de ensino. E, na maioria das vezes, essas instituições apresentam dificuldades básicas, como:

  • Falta de sistematização dos documentos pedagógicos (planos de ensino, cronogramas, planos de aula, etc.);
  • Ausência de ferramentas de controle do trabalho do professor;
  • Dificuldade de gestão do processo ensino-aprendizagem;
  • Incapacidade de geração e/ou análise dos dados relativos ao desempenho acadêmico dos estudantes;
  • Dificuldade no processo de sistematização do planejamento das aulas;
  • Ineficiência no acompanhamento do desempenho dos estudantes;
  • Pouca transparência na divulgação de resultados e devolutivas dos estudantes.

Percebam que a maioria das dificuldades supracitadas estão, de alguma forma, relacionadas a gestão. Tecnologias avançadas e inovadoras são sempre bem-vindas, entretanto a nossa educação ainda precisa resolver os problemas mais simples do dia-a-dia dos professores e gestores educacionais.

Fala-se muito em inclusão digital e utilização de gadgets em escolas e faculdades. De tal forma que algumas escolas públicas e privadas investem pesado na compra de equipamentos como tablets, mesas digitalizadoras, etc. Mas será que o uso desses equipamentos melhoram os resultados educacionais? Eis uma pergunta que precisa ser respondida. Em muitos casos, nem é possível mensurar tais resultados, já que não há método e/ou parametrização definida para implantação do uso desses equipamentos. De fato, se não sabemos qual é o efeito pedagógico prático da implementação desses equipamentos, vale a pena investir cegamente? Não seria o caso de avaliar profundamente a real necessidade de compra desses gadgets? Inegavelmente, essas são perguntas importantes.

O ENEM e as novas tecnologias

Outra situação recente é a decisão do MEC de implantar o Enem online. A primeira vista parece ser interessante, mas algumas coisas precisam ser levadas em consideração:

  1. O Enem padroniza todos os processos de avaliação das escolas brasileiras, isto é, as escolas seguem o modelo avaliativo do MEC;
  2. Os estímulos solicitados na avaliação impressa são diferentes dos estímulos gerados na online (escrevi um artigo sobre a importância da escrita à mão, principalmente para crianças e adolescentes. Sugiro a leitura.);
  3. O maior ganho gerado pela avaliação online reside na possibilidade de aplicar itens multimídia e modelos que envolvem habilidades cognitivas mais complexas.

Nesse contexto, seria interessante inserir a prova online apenas como uma etapa do Enem, evitando a padronização da ferramenta nas escolas brasileiras e aumentando o escopo de habilidades cognitivas avaliadas pelo MEC. Assim, teríamos a avaliação escrita à mão e online, ampliando o leque de possibilidades avaliativas e de estímulos aos nossos estudantes.

Em suma, as tecnologias educacionais são fundamentais para evolução dos processos de ensino, mas é preciso inicialmente resolver os problemas de base da nossa educação. E, para isso, em grande parte dos casos, as tecnologias educacionais mais simples e menos dispendiosas são as mais eficientes. 

A implantação de novas tecnologias educacionais deve ser criteriosa, sob pena do desperdício de recursos, que muitas vezes são escassos no Brasil. Por isso, o gestor educacional deve avaliar com cuidado a implantação de qualquer tecnologia em sua instituição. Sugiro que seja feita uma lista de todas as dificuldades enfrentadas por sua instituição de ensino, colocando em ordem de prioridade a resolução de cada uma delas. Dessa forma, o gestor educacional pode fazer escolhas mais racionais quanto a aquisição de novas tecnologias.

Ainda há muito a ser explorado sobre o tema. Escreverei mais sobre ele em breve.
Até o próximo artigo!